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Desde 1946 até aos nossos dias

As histórias conhecidas das pão de forma

Envie a sua história... Será publicada aqui para que todos os entusiastas a possam conhecer, e aprender!


GILDA

1ª edição de Abril 2004
Por Mestre Arq. Miguel Brito

Olá! O meu nome é GILDA, sou uma carrinha Volkswagen nascida em 1966.
Técnicamente sou "Tipo 2", mas as pessoas conhecem-me por "Pão-de-forma".
O meu nome de nascença é Kastenwagen 21, que significa veículo misto de passageiros e carga.
Fui matriculada a 17 de Novembro de 1966, e já tive oito donos antes do actual.
Nasci de cor verde garrafa, depois estive pintada de cor creme.
Finalmente desde 2000 fiquei azul e branca, como as cores da Monarquia Portuguesa.
Podem ver fotografias minhas na Internet, no site português www.paodeforma.com , ou acompanhar as minhas aventuras com o meu dono Miguel Brito, no www.vintagebus.com.
Mudem para melhor, mudem para um Volkswagen Clássico! Bons quilómetros a todos, ao volante de um VW!...

O Passante pergunta,
o Dono responde:
De que ano é?
Foi registada a 7 de Novembro de 1966. Tem 38 anos em 2004.

Quanto dá?
O mostrador vai até 120 km/h, mas não é conveniente ultrapassar os 100km/h. O ideal é viajar a 80-90km/h, e na cidade fazer 50km/h. Ou seja, basta cumprir a Lei do Código da Estrada da República Portuguesa.

Nota: Os Mercedes só podem usar entre 48,98% a 62,18% da sua velocidade total (o Audi A3 56,87-64,86%), pois a lei limita a condução em autoestrada pública a 120 km/h, pelo que o proprietário do Mercedes paga o carro todo mas só pode usar cerca de metade do motor!
Na Gilda o motor é usado a 100%, pois está feito para cumprir a legislação em vigor.

Qual é a cilindrada?
Aproximadamente 1600 cm3.

Quantos cavalos tem?
44 cavalos força.

Gasta muito?
Gasta exactamente 9,85 litros/100km, seja em cidade ou estrada.
O equivalente a um Audi A3 (motor 1.6 = 9,6-9,8 l/100km, segundo catálogo Audi Dez.2003, do modelo novo), e menos que qualquer Mercedes série E (modelos E200, E230, E280 4matic, E320, E320 4matic, E420) com consumos mistos entre 9,70 a 13,6 l/100km, e na cidade 13,60 a 20,5 l/100km, segundo o catálogo oficial Mercedes.
Gasta também menos gasolina que qualquer Mercedes Classe C (C180, C200, C200 kompressor, C230 kompressor, C240, C280) que consomem entre 10,2-11,0 l/100km.
Em conclusão podemos dizer que cada vez que vemos um Mercedes passar na estrada vemos um carro a gastar mais gasolina que a Gilda.
Onde há um Mercedes há uma despesa, onde está a Gilda está a alegria.

Isso pesa um bocado?
Os Mercedes série E pesam entre 1560 kg a 1760 kg.
Os Mercedes série C pesam entre 1350 kg a 1430 kg.
O Audi A3 pesa entre 1205 kg a 1340 kg.
A Gilda pesa 1010 kg.
(Menos peso igual a menor desgaste de pneus).

Mas os carros novos não são melhores?
Melhores em quê? Só se for no conforto, mas ignorando todos os custos inerentes.
Mais caros, igual aos outros todos, com desvalorização acentuada, e elevadas despesas de manutenção.
Claro que o Audi ou Mercedes é mais confortável, mas à custa de um preço que se desvaloriza para metade em 5 anos. E de uma manutenção substancialmente mais elevada que a Gilda (preço por pneu igual a 4 do VW, imposto de circulação, seguro de carro novo, filtros de papel para substituir, cartucho de filtro de óleo para substituir, etc).

Usa só gasolina Super Aditivada?
Não. Pode usar qualquer gasolina desde que superior a 92 octanas. O ideal é usar a melhor gasolina, sempre com 98 octanas, com ou sem aditivo.

O motor é de origem?
Não. Tem um motor reconstruído, com cabeças e válvulas resistentes, que impede a recessão das sedes de válvula por ausência de chumbo. Caso use aditivo, convém evitar aqueles que usam por base potássio, mais agressivo para o motor.

Isso já é de colecção?
Qualquer veículo automóvel, desde que conservado em bom estado, e dentro da configuração de origem, que tenha mais de 25 anos, é susceptível de ser considerado veículo de colecção. Esse certificado em Portugal é emitido pelo ACP-Clássicos, ou pelo CPAA. No caso de um Volkswagen Clássico, pode ainda ser obtido um visto de conformidade pelo VW Ar Clube de Portugal, com sede em Viana do Castelo.

O seguro é caro?
Através do ACP-Clássicos, o seguro fica em 50,86 euros por ano. Há que acrescer os 65,50 euros de quota anual desse Clube, bem como a IPO anual de 24,63 euros.


E o Imposto de Circulação?
Não paga nada, por já ter mais de 25 anos está isento de pagamento.

Já estava assim, ou foi você que a restaurou?
Comprei assim, rectifiquei as luzes (20,00 euros), mudei os cabos do travão de mão (125,00 euros), e os tubos de gasolina no motor (5 euros).

Era de família?
Não. Mas agora é da minha família, da minha esposa, e da minha filha. Teve oito donos anteriores, dos quais o sexto foi quem a manteve mais tempo, durante 13 anos certos.

Porque é que se chama GILDA?
Porque por tradição vários VW portugueses famosos têm nome.
A mais conhecida, e que é capa de um recente livro sobre antigos Tipo 2 é a "Rita", de 1950. Há também a "Bomba" de 1957 do Sr. Abel Coelho, o "Quadradinhos" do saudoso Sr. Espada de Palmela, e tantos outros.
Esta carrinha é a Gilda derivado às suas letras da matrícula GL. E quem não se lembra do saudoso "Herbie"?

Comprou há muito tempo?
Comprei a 12 de Setembro de 2003, ao Sr. Maia, pessoa que encomendou o restauro actual ao Sr. Pardal, de Camarate.

Tem muitos quilómetros?
Com este motor, provavelmente 10,000km. Nas minhas mãos, realizou até Abril de 2004, cerca de 5,500km.

É só para as voltinhas de fim de semana?
Não. É para aquilo que for preciso. Já foi ao Porto, a Oldrões (perto de Penafiel), A Moura no Alentejo, a Grândola, ao litoral alentejano, a Sagres, Lagos, Faro, Olhão, Tavira. Já correu Norte a Sul do País nas minhas mãos.

Quais são as vantagens de andar de carrinha?
O direito à diferença. Não andarmos todos de carros de plástico azuis escuros ou cinzentos.
Temos uma capacidade de carga de 600 kg com um volume e espaço enorme. Despesas reduzidas de manutenção. Menos porcaria atirada ao vidro ao circular atrás de outros debaixo de chuva. Possibilidade de abrir os dois vidros dianteiros no Verão. Posição de condução e passageiros mais alto do que dentro de um jipe (mais baixo), com boa vista sobre a paisagem (como nos autocarros de turismo) ,e melhor visão sobre a estrada em frente, o que se traduz por maior segurança no tráfego. Valor do veículo constante ou em valorização.

E as desvantagens?
Impossível passar despercebido. Permanentemente assediado por palermas a quererem comprar a carrinha, e a pensarem que é mais barato do que um carro velho em segunda mão.
Ter de estar sempre a responder a perguntas sobre tudo e mais alguma coisa. Por isso é que me vi forçado a escrever este folheto para responder aos perguntistas que povoam as nossas ruas.

O motor é atrás?
Sim. Como em todos os Volkswagens Clássicos, e nos restantes carros a sério. Se assim não fosse, os Porsches, Ferraris e Fórmula 1 não tinham motores atrás. Um carro a sério tem motor atrás!
Um Honda S2000 e um Audi TT jamais conseguem ultrapassar um Porsche 911.
E um Fiat, bem, isso é um Tupperware, nem sequer chega a ser carro...

Não tem air-bags?
Oh minha senhora, para que é que isso serve? Os carritos de plástico modernos é que têm esse tipo de coisas para aumentar os custos do carro. E porque são máquinas perigosas por atingirem excesso de velocidade, e serem imprevisíveis ao filtrarem demasiado as sensações reais da condução. São carros para serem vendidos a pessoas infantis, que depois tem de ser salvas dos acidentes que provocam pelas bolsas de air-bag.
Aqui, o condutor tem de ser responsável pela sua condução, senão... trama-se.
Nos carritos novos de plástico aparecem os air-bags porque as políticas sociais actuais defenderm o inconsciente, o homem da asneira, oferecendo sistemas para salvar condutores incompetentes, e permitindo que retornem à estrada.

Porque é que o volante é tão grande?
Porque torna mais leve a direcção. Assim faz-se menos força para virar, e o diâmetro do volante mais próximo da largura de ombros do condutor melhora a ergonomia e o conforto de utilização. Só os carros actuais de volante pequenino (tipo bolo rei) é que precisam de direcções assistidas e outras complicaçoes para encarecer o carro e avariar mais cedo ou mais tarde.

Porque é que os pára-choques são pintados e não cromados?
Porque a maioria dos condutores actuais não tem grande capacidade de manobrar os seus carros (velhos, velhas, garotas adolescentes, gordos, empregadas com pressa, enfim, quase todos), e acertam nos pára-choques ao estacionar, e assim é mais fácil e barato reparar os danos que os outros causam sem se responsabilizarem ou pagarem o devido.

Arranjar peças é difícil?
Não. Compram-se em diversas lojas usuais ou especializadas em VW, espalhadas por Portugal (Lisboa, Porto, Viana, Marinha Grande, etc), ou mandam-se vir por telefone, fax ou internet, de França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Bélgica. (Dos EUA, México e Austrália convém evitar, pelo excesso de taxas aduaneiras, que facilmente duplica o custo)

Tem algum carocha?
Tenho um carocha 1200 de 1963, carro que uso no dia-a-dia. O uso desta carrinha Tipo 2 (vulgo pão de forma) é um complemento.

Pertence a algum clube?
Ao VW Ar Clube de Portugal (Viana do Castelo), ao CAC-Clube Automóvel do Centro (Coimbra), e ao ACP e ACP-Clássicos (Lisboa). Actualmente, é recomendável que os proprietários de Carros Clássicos se agrupem em clubes e associações para melhor defesa dos seus interesses de restauro, manutenção e  usufruto de veículos históricos.

Não devia estar guardada?
Porquê? Guardada não aproveita a ninguém. O escape apodrece, os travões colam, a pintura degrada-se, os pneus deformam, e a bateria avaria.

Não devia ter cintos de segurança?
Não. Para cinto, basta o das calças. De origem não tinha, e veículos automóveis até Dezembro de 1966 estão isentos de obrigatoriedade de colocação, por Decreto-Lei. Como esta carrinha é de Novembro de 1966, está isenta.
Os cintos de segurança são perigosos, pois levam a conduzir com excesso de confiança, sem cuidado em evitar o acidente.

Era essa a cor de origem?
Não. A cor de origem era verde garrafa na totalidade, incluindo todo o interior, com os pára-choques e jantes brancas. Mas esta combinação de duas cores era opção possível para alguns modelos.

Uma carrinha dessas é rara?
Em Portugal, actualmente, sim. Note-se que em 1966 foram produzidos muitos carochas e apenas poucas carrinhas Tipo 2, das quais apenas uma percentagem é igual a esta, e das quais apenas algumas vieram para Portugal. Em andamento, operacionais, legalizadas, de modelo entre 1950 a 1966, aparecem a circular menos de 20 no Continente.

Onde é que posso arranjar uma igual?
Compre no estrangeiro, em França ou Inglaterra. Em Portugal, só comprando parecidas, e a precisarem de grandes trabalhos de restauro e recuperação.
Na Marinha Grande, há uma lista de 40 compradores inscritos para comprar uma carrinha igual a esta, anterior a 1967, mas nos últimos dois anos apenas apareceram umas 5 operacionais à venda, e todas do modelo posterior (vidro dianteiro único e porta lateral de correr). É questão de se inscrever também...
Eu tive de esperar seis anos para obter esta. O sétimo dono em 1997 jurava que não a vendia. Mas consegui comprá-la ao oitavo em 2003.
Quem espera sempre alcança, e entretanto descansa.
Esteja atento e descubra aquela que goste, estude a idade e saúde do dono, e espere. Espere muito tempo. Mantenha-se em contacto com ele, ou observe regularmente a coluna da necrologia nos jornais da zona do dono. Quando chegar o seu momento, tente comprá-la aos herdeiros. Poderá ser a sua oportunidade. No entanto tome em atenção que a sua idade pode ser bastante superior à do dono actual, pelo que esta solução pode não lhe servir...
Lembre-se que há poucas carrinhas destas, e não chegam para os pretendentes.

Quanto vale?
Não há valor definido. Estamos a falar de um modelo que já não se fabrica, por isso o valor de compra e venda tem que ser um compromisso entre quanto o vendedor quer, e quanto o comprador quer ou consegue dar. O comprador quer pagar pouco, o vendedor quer ganhar muito, por isso...

Quanto é que lhe custou?
Porquê? Quer ajudar a pagar? Esse valor está ultrapassado, e pago. Paguei a pronto, num molho de notas de 50 euros, sem recibo, nem garantia, a um particular, com os documentos todos em ordem, com declaração de compra e venda correctamente preenchida, e com registo na DGV dentro do prazo, imediatamente após a transacção. Tudo certo, e correcto.
Mas posso apenas dizer-lhe que custou menos do que se tivesse sido eu a fazer o restauro, e custou menos que um carro de plástico moderno.

Mas há-de ter um preço?
Podemos apenas observar os preços que são usualmente pedidos. Alguns exemplos: Pode comprar duas completamente podres perto da Nazaré por 2,500 euros (mais transporte e burocracia de legalização).
Foi vendida uma a precisar de restauro na Pampilhosa por 4,500 euros.
Há uma parecida à Gilda algures no Norte do País à venda por 10,000 euros, mas ninguém a compra.
Foi vendida uma mais moderna (pós-1967) nos Leilões BCA por 4,500 euros, mas também foi vendida outra igual a essa num particular por 400 euros (sim, oitenta contos...). Por isso, quem sabe o preço certo?
Alguns exemplos:
Na Holanda, em Abril de 2004, os preços de modelo semelhante vendidas por www.kieftenlok.nl oscilam entre 4,220 a 8,750 libras (6,000-12,600 euros, mil e duzentos a dois mil e quinhentos contos).
Em Inglaterra, em Outubro de 2003, vendas de particulares entre 5,000 libras a 8,000 (7,200 a 11,250 euros, mil e quatrocentos a dois mil e duzentos contos)
Em França, em Abril de 2004, só uma de 1966 à venda, por 10,000 euros (no Departamento 45).
Concluimos com aquilo que parecem ser os preços usuais pedidos no estrangeiro (Europa):
Por restaurar, incompletas, alteradas = 2,550.
Estado normal, usáveis = 6,000-10,000 euros.
Estado concurso, impecáveis = 15,000 euros.
No entanto, como vimos, isto é meramente indicativo.
Em Espanha, destas não há à venda, e uma de 1954 foi comprada em Portugal (!) e tem agora a matrícula B2173VW.
Por isso, boa sorte. Bem precisa!

Não pensei que fosse tão caro!
Acha caro? Mil, dois mil, ou três mil contos não é caro. Qualquer carrito novo actual custa para cima de dois mil contos, desvaloriza mais de trezentos contos por anos e tem custos elevados de manutenção. E nem o próprio dono gosta dele, pois acaba por trocar quando possível por "outro melhor", "mais novo", de preferência "topo de gama" (ou seja, muito caro). E nunca está satisfeito. Um carrinha como a Gilda dá alegria ao seu dono, é difícil encontrar quem queira vender, e é algo que já não se fabrica. Para comprar um carrito novo, um BMW, Audi ou Mercedes basta ter dinheiro. Para comprar uma Gilda, é preciso bem menos dinheiro, mas paciência, sabedoria, atenção, e sorte. Isto, nem toda a gente tem.
Se o problema fosse só dinheiro, então não havia problema: onde vemos um Mercedes ou equivalente, podíamos ver uma carrinha clássica VW.
O que leva um pai de família a roubar o dinheiro do pão da boca dos seus filhos, para ir entregar ao stand em troca da Sharan de 8 mil contos?
Não seria melhor pai se comprasse uma carrinha Tipo 2 por 2 mil contos, e oferecesse os restantes 6 mil contos à mulher e filhos? (Podiam viajar pelo Mundo todo, melhorar a casa, enviar os filhos para as melhores escolas, comprar e usar um barco, divertir-se, descobrir modos de complementar a sua vida)

Quanto custa um restauro?
Depende do que se fizer, e se quiser. Mas nunca menos de 2,500 euros com pouca coisa e muita intervenção do próprio. 5,500 euros com trabalho médio, e cerca de 15,000 euros com trabalho completo (Pelo menos foi este o valor indicado por um proprietário em encontro VW na Marinha Grande). Lembremo-nos que a mão de obra de chaparia é cara, especializada, e a carrinha tem muita área de chapa...
Um motor novo custa 1,200 euros e a remontagem dos seus componentes cerca de 350 euros.
Genericamente podemos pensar no custo de restauro como o somatório dos custos parciais = preço veículo base + chapa + pintura + interiores + acessórios + electricidade + trens rolantes + rodas + motor + remontagem + diversos. Atribuindo valores estimados a cada parcela temos a previsão do custo de restauro, que deve depois ser multiplicada por 2 (factor surpresas).
Quando começa não pode mais parar, por isso prepare-se bem, financeiramente (sempre o dobro do dinheiro necessário) e moralmente (lutar contra os amigos a gozar, e a mulher a censurar).

Quanto tempo leva o restauro?
Sei lá! Depende do estado inicial, do nível de qualidade pretendido, do investimento possível, etc. Pode ser feito de seguida, ou dividido por muito tempo. Já fiz um restauro em seis meses, mas outro levou-me quatro anos...
Em média costuma levar ano, ano e meio, para uma qualidade razoável, e quatro a dez anos para estado de concurso.
Tem que descobrir qual é o seu nível de exigência. Há quem goste de fast-food e quem prefira gastronomia...
Até há quem ande de Fiat, mas há também quem ande de automóvel, em Volkswagen.

Não quer vender?
Não. Os volkswagens clássicos compram-se,  restauram-se e fazem-se, não se vendem...


Perguntista

Por Miguel Brito
Atelier da Garagem, 17 de Abril de 2004,
17.43H-18.15H, 18.30H-19.22H.

É demais! É estranho, é irracional! Anda tudo doido com a Gilda. Parece que perdem o tino, a razão!
Fomos de Férias para o Algarve (e Costa Alentejana) entre o dia 6 e 12 de Abril de 2004, numa viagem de 1240 km, que decorreu da melhor forma possível. A Gilda portou-se excelentemente, não teve "manias" nenhumas, e a Xana e a Beatriz gostaram da viagem.
No entanto, não deixou de acontecer algo surreal, que ultrapassa a mais delirante imaginação!
Em todos os dias desta viagem, havia sempre alguém a perguntar coisas, a meter conversa  propósito da Gilda.
Atenção: Não era de vez em quando, era todos, mesmo todos os dias!
E a minha sorte foi estar com a Xana. Assim, tenho testemunhas. Ela só acredita porque viu. Já estava paralisada de tanto perguntista.
De vez em quando já dizia: Ó Miguel, olha lá o que é que o senhor quer... e lá estava mais um de sorriso armado de orelha a orelha e a perguntar de que ano é que é.

Assim de repente, e contando pelos dedos lembro-me de 14 pessoas que me dirigiram a palavra a perguntar as mais diversas questões.
E isto sem contar os que acenavam nas bermas,  e que diziam adeus de dentro dos outros carros. Eles são doentes...
Todos torcidos dentro dos carros, que à vezes iam apinhados, e onde eu via as cabecinhas deles todos tortos a tentarem olhar para trás, para verem o reluzente emblema VW na frente da Gilda. Era a loucura total.
E quando a meio de uma ultrapassagem, ao lado da Gilda, resolviam abrandar para ver melhor?
E a quantidade dos que faziam sinais de luzes? É inacreditável! O mais divertido, é que os outros condutores não percebiam do que se tratava, e passavam a andar todos mais devagar, com medo que fosse o controle de velocidade da Brigada de Trânsito. É só rir...
Note-se que estávamos em plena época de Páscoa: polícia? Nem vê-los... É isto o controle da "Operação Páscoa"? Só vimos um carro da GNR nestes 6 dias. Isto está entregue aos cidadãos e vadios...
Então, e nas bombas de gasolina? Era sempre mais uns minutos para estar à conversa com os funcionários, para explicar o ano, e o modelo, e todos a fazerem comentários elogiosos ao aspecto fantástico. Felizmente só viam à distância.
Estão-me sempre a perguntar o raio do ano da Gilda.
Por isso é que no carocha tenho chapas de matrícula com o ano e mês. Assim, ao menos reduzo as perguntas para metade. É que as pessoas não imaginam a quantidade de vezes que tenho que andar a dar as mesmas respostas. Parece que ando a preencher questionários pela rua!....

No próprio dia em que chegámos, eram umas oito e tal da noite, e já estava a ficar escuro. Um grupo de ingleses passa a caminho do jantar e param a olhar. E a meter conversa:
Do you speak english?
Yes, a little. - respondi eu.
What's the year?
Is from 1966.
Oh, it´s very old.
Well, not very old. I am born in 1966 too... - respondi com vontade de me rir.
It's in good shape.
Me or the car? - continuei.
Both, I suppose.
This Bus is the newest of the old ones, because in 1967 are big changes in the model.
Yes, I see. Goodnight Sir.
Good day to you too.
E assim se terminou este intercâmbio internacional.

Em Olhão, ao meter gasolina na BP, de noite, antes de voltar para Lagos, estavam duas jovens funcionárias na caixa de pagamento a olhar vidradas para a Gilda.
Quando fui pagar, fartaram-se de gabar a Gilda. Que máximo, que giro que é uma coisa daquelas, que bom para as férias, etc. Enfim, estava difícil de largar dali. De tal modo, que ao voltar, a Xana perguntou logo o que é que elas queriam...
Ora, o que é que elas queriam... duas algarvias de Olhão, que são espertas porta sim porta não.
A verdade é que vim embora inteiro, sem marcas de baton, vestido, todo inteiro. Nada de especial.
Lembremo-nos que no Algarve as miúdas guiam motas de 600 cc para cima.
Não são para brincadeiras.
Basta recordar a aluna da Lusíada que era chefe de um clube motociclista do Algarve, e que se gabava de dizer que tinha 40 homens às ordens dela. Não sei o que ela queria dizer com isso, mas dizia também que tinha seis tatuagens, das quais só se conseguiam ver três. (Pelo menos em público).

Em Lagos, na Rua Salazar Moscoso (que raio de nome...), duas pessoas de uma loja conversavam a apontar para a Gilda. Quando passei por perto, veio logo a pergunta usual:
De que ano é? - perguntou o indivíduo de imediato.
De 1966. - disse eu, repetindo pela milésima vez esta resposta.
De 1976? - responde ele incrédulo pela enorme idade.
Não, de Novembro de 1966. - ainda é mais antigo do que ele pensava. Logo o outro acrescentou:
É que eu lhe estava a dizer, que devia ser dos anos cinquenta.
É parecida. Este tipo de VW fabricou-se entre 1950 e 1967 com o vidro da frente dividido. Depois aparecem com vidro inteiro e porta de correr ao lado. - estive a fazer a parte pedagógica e didáctica dos Tipo 2.
Parabéns, está linda.
Obrigado. - e lá segui, deixando-os ainda a falar de carros antigos.

No mesmo sitio, no mesmo dia, mas de tarde, de uma outra loja, a funcionária que estava à porta, perguntou:
a carrinha é sua? - estava eu a abrir a porta com a chave, pelo que se pode ver a inteligência da questão.
É. - disse eu, já à espera da pergunta usual.
De que ano é?
De 1966.
Ah, pois. Sabe, é que eu também tive uma. Foi o primeiro carro que comprei. - e ficou a fitar o vazio do horizonte, numa melancolia que expressava a saudade, ou a estupidez total.
Que bom para si! Olhe, para mim, foi o último carro que comprei! - já não tive resposta. Mas pelos vistos não deve ter gostado muito, pois deu a entender que já não o tinha. Mas quanto a isso, não tenho eu culpa.

No dia seguinte, ainda pouco passava das 9 horas da manhã, e estávamos a entrar para a Gilda, com a Xana a prender a Beatriz no "Trono", e eu a guardar sacos, aparece um maduro saído sabe-se lá de onde:
De que ano é o carrito?
Olhe, o carrito, é uma carrinha volkswagen de 1966. Um bom dia para si!
Foi-se embora. Parecem moscas, ou cogumelos, aparecidos sabe-se lá de onde.

No terceiro dia, de novo ainda não eram dez horas, e de novo ao entrar para a Gilda, ouço uma voz vinda não sei de onde:
De que ano é?
Bem, onde é que ele está? Olho à volta e não vejo ninguém.
O carro, de que ano é?
De novo a voz, e vejo então um indivíduo longe, atrás de um muro, a espreitar e a perguntar:
É de 1966. - digo eu. Parece que têm radar. Eles estão em todo o lado.

No quarto dia, eram 10 e tal da manhã.
Dentro do apartamento, espreitei pela frincha da cortina para a rua. Não vi ninguém.
Abri as cortinas e sai para a varanda. Olhei para a rua, para a praça, para todo o lado. Não havia ninguém por perto.
Desci para a rua e levei os sacos direito à Gilda, olhando para todos os lados.
Hoje, não me apanham desprevenido!
Guardei as coisas dentro da Gilda, sempre a olhar em volta, para antecipar o aparecimento de algum perguntista.
Mas não aparecia ninguém.
Acabei de fechar a Gilda, de trancar as portas, e... mesmo quando ia afastar-me, olhei, e vejo um papel no vidro da frente.
O que é isto? Tiro um papel dobrado e entalado no limpa-vidros. Abro o papel e diz o seguinte:
"Se, por acaso, estiver interessado em vender a carrinha, por favor contacte-me. Obrigado, 917411275, Paulo Cardoso."
Pronto, apanharam-me outra vez de surpresa. É demais!
Mesmo quando não aparece ninguém, continuam a perguntar coisas...

Isto foi de tal maneira no Algarve, que tive uma ideia!
Escrevi um artigo destinado a ser fotocopiado, e vou pôr as fotocópias dentro da Gilda. Assim, quando aparecer outro perguntista, tenho logo um folheto para lhe dar, e poupo a conversa da treta.
Tem as respostas a todas as mais estranhas perguntas que já me fizeram pela estrada fora. E aproveitam para aprender mais algumas coisas acerca da vida rodoviária.
Aí é que vai ser a minha vez de gozar.
Nem imaginam a quantidade de respostas que levam às perguntas que ainda nem fizeram!
Melhor ri quem ri por último.
Divirtam-se, e bons km's em VW clássico, claro!



A Guida

A história é mais comprida, mas para que esta página não fique em branco enquanto não me mandam as vossas, conto de forma sintética a história da minha primeira pão de forma...

Desde pequeno que, na companhia dos meus pais, visitava regularmente a loja de roupas e calçado do Sr. António e da D. Rosa na Rua do Lumiar.
A dada altura vi a Pão de Forma GD-99-10 lá na garagem... Era para as feiras, pois que tinha muito espaço para transportar roupas e calçado, para não falar da grade no tejadilho: enorme!
E desde há muito  que fui perguntando se não ma queriam vender... Invariavelmente a resposta era não. Ora porque era para as feiras, ora porque o sobrinho gostava da carrinha e ia transformá-la para caravana.
O tempo foi passando e a história foi-se repetindo... Não perdi o gosto por esta carrinha, mas também gostava de clássicos em geral.
Um belo dia de Outubro de 1998 consegui adquirir lá ao lado numa praceta um Ford Escort de 1970, para começar nesta vida dos clássicos... E como ficava lá perto lá ia passando à porta e um dia comentei sobre esta aquisição... Quando fui surpreendido pela pergunta: "E não queres comprar a carrinha?"
Como devem imaginar não hesitei muito na resposta, e apesar de já ter assumido o compromisso do Ford Escort não podia deixar de comprar a carrinha!
Ainda desconfiei, dado que eu tinha feito aquela pergunta tantas vezes, sem sucesso, mas era mesmo verdade!
E no dia 16 de Novembro de 1998 lá a comprei!


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